R$ 10,46 bilhões em dinheiro esquecido aguardam donos em bancos e consórcios, aponta Banco Central

Até agosto de 2024, Banco Central do Brasil identificou R$ 10,46 bilhões em recursos que ninguém mais busca — dinheiro que sumiu nas entrelinhas da vida financeira, esquecido em contas inativas, consórcios encerrados ou heranças não reclamadas. Esse valor, maior que o orçamento anual de muitos municípios brasileiros, pertence a quase 53 milhões de pessoas e empresas. E o mais preocupante? A maior parte está lá, parada, perdendo valor para a inflação — sem juros, sem correção, sem aviso.

Quem tem esse dinheiro esquecido?

Do total de R$ 10,46 bilhões, R$ 8,08 bilhões são de 48,4 milhões de pessoas físicas. São saldos de contas inativas, restituições de tarifas indevidas, valores de consórcios que terminaram e ninguém foi buscar, ou até mesmo heranças que ninguém sabia que existiam. Outros R$ 2,37 bilhões estão em nome de 4,56 milhões de empresas — muitas delas já extintas, mas que deixaram algum saldo em alguma instituição financeira.

A distribuição é curiosa: 64,4% dos valores são de até R$ 10 — o tipo de valor que a gente esquece porque não vale a pena ligar. Outros 24% estão entre R$ 10,01 e R$ 100. Só 1,76% dos recursos estão acima de R$ 1.000. Mas atenção: quem tem valores em mais de uma faixa é contado mais de uma vez. Isso significa que há pessoas com pequenos saldos em vários lugares — e cada um desses R$ 5, R$ 7, R$ 12 pode ser o que falta para pagar uma conta.

Onde está esse dinheiro?

Os números revelam onde o dinheiro foi parar. R$ 5,9 bilhões estão em bancos tradicionais. Cerca de R$ 3,1 bilhões em administradoras de consórcios — instituições que, ao final de um ciclo, devolvem o saldo ao consorciado. Outros R$ 864 milhões estão em cooperativas de crédito. O restante, espalhado por instituições de pagamento, financeiras, corretoras e distribuidoras.

Desde que o Sistema Valores a Receber (SVR) foi lançado em fevereiro de 2022, já foram devolvidos R$ 11,74 bilhões. Isso significa que, embora o montante em espera continue crescendo, a máquina de devolução também está funcionando — e bem. Em junho de 2024, R$ 318,3 milhões foram resgatados. Em agosto, esse número subiu para R$ 396,7 milhões. Um aumento de 24,6% em dois meses. O que mudou?

Por que o dinheiro continua acumulando?

"Nós continuamos abrindo e fechando contas, as instituições cobram tarifas, algumas indevidas, então precisam devolver. A gente tem operações de crédito em curso, grupos de consórcio terminam e os consorciados têm direito a um valor. Então, como a nossa vida continua, os eventos continuam a ocorrer", explicou Carlos Eduardo Gomes, chefe do departamento de atendimento institucional do Banco Central do Brasil, em entrevista ao Jornal Nacional.

É isso: a vida financeira é um fluxo constante. Uma conta inativa vira esquecida. Um consórcio acaba. Uma tarifa errada é anulada. Uma pessoa morre e os herdeiros não sabem. E cada um desses eventos gera um novo valor para ser devolvido — mesmo que já tenham sido devolvidos bilhões antes.

Por que isso importa?

Por que isso importa?

"Está perdendo porque a inflação corrói o poder de compra. O recurso que está depositado nos bancos não é corrigido pela inflação. Dinheiro realmente é um fôlego para a economia. Toda vez que você aumenta essa base monetária, você aumenta a circulação de compra de bens e serviços", alertou o economista Felipe Leroy, citado pelo G1.

Esses R$ 10,46 bilhões não estão apenas parados. Eles estão desaparecendo. Se você tem R$ 50 esquecidos desde 2020, hoje eles valem menos de R$ 40 em poder de compra. Isso é roubo silencioso. E quando milhões de pessoas deixam de resgatar esses valores, a economia perde um fluxo de consumo que poderia impulsionar pequenos negócios, pagar contas de luz, comprar remédios.

Como encontrar e resgatar seu dinheiro?

A consulta é simples: só é possível fazer pelo site oficial do Banco Central do Brasil. Nenhum outro site, app ou WhatsApp é confiável. Em fevereiro de 2024, o sistema foi reforçado contra golpes: agora exige conta gov.br nível prata ou ouro, com autenticação em duas etapas — ou seja, precisa do app gov.br, dados cadastrais e validação facial.

Para receber, é obrigatório ter uma chave PIX. Sem ela, você precisa entrar em contato com a instituição onde o valor está e criar uma chave. O Banco Central não avisa quando o dinheiro cai — o crédito é feito diretamente pela instituição financeira. E não, você não vai receber um e-mail ou SMS. Só confira no seu extrato.

Novidade: solicitação automática

Novidade: solicitação automática

Uma mudança recente e pouco divulgada pode mudar tudo: agora é possível ativar a solicitação automática. Se você habilitar, o sistema busca automaticamente valores em seu nome — sem que você precise acessar o site toda vez. É opcional, mas extremamente útil. Imagine receber R$ 87 de um consórcio que você nem lembrava que tinha feito, sem ter feito nada.

"O propósito é facilitar ainda mais a vida do cidadão, que não precisará consultar o sistema periodicamente nem registrar manualmente a solicitação de cada valor que existe em seu nome", afirmou o Banco Central do Brasil.

Existe prazo para resgatar?

Embora alguns sites tenham dito que o prazo acabou em 16 de outubro de 2024, o Ministério da Fazenda confirmou: não há prazo. Os valores ficam disponíveis para sempre. As instituições não podem apagar nem reter esses recursos. O que muda é só a forma de resgate — e a facilidade de encontrar.

As instituições que não aderiram ao PIX ainda exigem solicitação manual. E valores de contas conjuntas também não são automaticamente liberados — o titular precisa solicitar.

Frequently Asked Questions

Como sei se tenho dinheiro esquecido?

Acesse o site oficial do Banco Central do Brasil e consulte o Sistema Valores a Receber (SVR). Você precisa estar logado com conta gov.br nível prata ou ouro, com autenticação em duas etapas. O sistema busca automaticamente valores em seu CPF ou CNPJ em bancos, consórcios e cooperativas. Não há necessidade de saber qual instituição detém o valor — o sistema faz a busca por você.

Por que o dinheiro não é corrigido pela inflação?

Porque os recursos esquecidos não geram juros nem são atualizados monetariamente enquanto permanecem nas contas inativas. A correção só ocorre no momento do resgate, e mesmo assim, o valor é pago conforme o saldo registrado na data da inatividade. Isso significa que, se você tem R$ 100 esquecidos desde 2018, hoje ele vale menos de R$ 70 em poder de compra real — mesmo que o banco o devolva integralmente.

Posso resgatar dinheiro de parentes falecidos?

Sim. O SVR permite que herdeiros consultem valores em nome de pessoas falecidas, desde que comprovem a relação e apresentem documentação como certidão de óbito e documento de sucessão. O valor será creditado na conta do herdeiro, desde que a chave PIX esteja vinculada ao CPF do beneficiário legal. Muitos não sabem que isso é possível — e perdem dinheiro que poderia ajudar a pagar dívidas ou funerais.

O que fazer se não tiver chave PIX?

Você pode criar uma chave PIX gratuitamente em qualquer banco ou instituição financeira autorizada. Se não tem conta em banco, pode usar um aplicativo de pagamento como PicPay, Mercado Pago ou PagBank. Depois de criar a chave, você precisa vinculá-la ao seu CPF e informar no SVR. Caso não consiga, entre em contato diretamente com a instituição onde o valor está — elas ainda aceitam solicitação manual por documento.

Como evitar golpes ao resgatar o dinheiro?

Nunca forneça dados pessoais, senhas ou faça transferências para "liberar" o valor. O Banco Central nunca pede pagamento para resgatar dinheiro esquecido. A única plataforma oficial é o site do SVR. Se alguém ligar, mandar mensagem ou e-mail oferecendo ajuda por um custo, é golpe. Use apenas o app gov.br e nunca clique em links enviados por terceiros.

O serviço de solicitação automática vale a pena?

Sim, especialmente se você já teve contas em bancos diferentes, fez consórcios ou mudou de endereço. A solicitação automática rastreia novos valores à medida que surgem — sem que você precise lembrar de acessar o site. É gratuito, seguro e pode te surpreender com pequenos valores que você nem sabia que existiam. É como um seguro de dinheiro esquecido.

1 Comentários

Alexandre Oliveira
Alexandre Oliveira

novembro 29, 2025 AT 04:51

Nem acredito que tem gente esquecendo R$ 5 na conta inativa... eu até esqueço de onde coloquei o chuveiro, mas dinheiro? Não, não esqueço. Mas essa história do SVR é boa, né? Vou checar agora mesmo.

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